Estômago english
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ROTEIRO


O roteiro do Estômago nasceu de um modo interessante e que vale a pena ser contado.
Em meados de 2003, o escritor Lusa Silvestre enviou para Marcos Jorge três contos inéditos, todos centrados no argumento comida. Um deles chamou-lhe logo a atenção, e narrava a história de um homem que aumentava seu prestígio numa prisão cozinhando para seus companheiros de cela. Marcos gostou muito do conto e sugeriu ao Lusa que o adaptassem. Mas como o conto era curto e insuficiente para embasar um longa, era necessário inventar mais coisas. E assim, juntos, Lusa e Marcos foram criando toda uma história para o protagonista “antes” de ir para a cadeia e desenvolvendo a história dele na prisão, e o roteiro foi sendo escrito. E ainda em fase de “escaleta”, ou seja, antes de escreverem o roteiro propriamente dito, perceberam que poderiam estruturar o filme de maneira muito interessante e rica de nuances se misturassem o tempo de “antes” com o tempo “da cadeia”, fazendo com que as duas fases da história (que eram praticamente duas histórias diferentes, mas com o mesmo personagem) precipitassem juntas em direção a um gran-finale.
LEles logo perceberam que o potencial do que estavam criando era grande: uma história universal, compreensível a todo tipo de pessoa, que mistura poder, sexo e culinária de maneira visceral e orgânica.
Um fato interessante foi o modo como chegaram ao “final” da história. Depois de vários dias escrevendo, o roteiro tomava forma e ficava cada vez mais consistente, mas o final do filme não saia. Eles simplesmente não sabiam como acabar a história. Uma noite, Marcos comenta com a Cláudia da Natividade sobre o impasse. Ela sugere um final fortíssimo, surpreendente. No momento, Marcos titubeou, disse que não dava, que era demais para a história, que não poderiam acabar o filme assim... No dia seguinte, em seu escritório, Marcos reconsiderou e viu que o final era mesmo sensacional. Ligou para Lusa e contou-lhe a sugestão de Cláudia. O Lusa reagiu exatamente como Marcos, no dia anterior: que não dava, que era demais, que não podiam, etc. Naquela mesma tarde Lusa reconsiderou: o final era aquele, obviamente.
O título do filme também tem sua história. O título do conto (Presos pelo Estômago) não satisfazia os roteiristas, e o primeiro nome do projeto foi “Uma História Gastronômica”. Mas o nome ainda não os convencia completamente, eles precisavam de um título mais forte, que fosse compatível com as tonalidades da história que estavam escrevendo. Aí surgiu ‘Estômago’, simplesmente. Não foi de aceitação imediata, mas acabou prevalecendo. Estômago refere-se obviamente à digestão, mas também de todas as metáforas relacionadas ao órgão: soco no estômago, ter estômago para enfrentar uma situação, dor de estômago... Numa rápida pesquisa percebeu-se que, surpreendentemente, depois de mais de cem anos de história do cinema, ninguém tinha tido a coragem de usar este nome tão comum como título de um filme. Talvez pelas contra-indicações, que são muitas. Mas o título Estômago reflete bem a visceralidade da história e tem funcionado.
A primeira versão do roteiro foi escrita muito rapidamente, em cerca de 30 dias, pois havia uma data final para que se participasse de um concurso. E nela já estavam presentes todos os elementos fundamentais que acabariam no filme. Mas, depois disso, o roteiro passou por muitas revisões, mais ou menos umas dez. Nunca se deixou de trabalhar nele. As fases mais significativas deste trabalho foram durante a pré-produção, em que se recolheram as sugestões dos colaboradores mais próximos do filme, inclusive do escritor Luis Mendes Jr., que passou mais de 30 anos preso; durante os ensaios, em que os atores deram muitas idéias, especialmente para os diálogos; durante a própria filmagem, pois chegou-se a escrever uma cena numa noite e filmá-la no dia seguinte; durante a montagem, é óbvio; e até durante a finalização do som, quando foram reescritos os offs do Nonato. Um trabalhão, mas valeu a pena.
Em 2005, o Lusa Silvestre publicou o livro “Pólvora, Gorgonzola & Alecrim”, reunindo oito contos sobre comida, inclusive o “Presos pelo Estômago”.