Estômago english
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O homem é o único animal que cozinha. Isso já bastaria para justificar o tema de um filme como o Estômago.

Eu adoro cozinhar. Aprendi a fazê-lo na Itália, onde vivi toda a década de 90. Lá a culinária é coisa séria e bastante difundida entre a população: praticamente não há italiano que não cozinhe. Lá aprendi a respeitar o momento das refeições como algo sacro, um momento de encontro privilegiado entre os comensais. Do ponto de vista artístico, acredito profundamente em procurar a verdade nos aspectos mais simples da existência humana, nos aspectos mais básicos, essenciais e ancestrais, entre os quais elenco entre os primeiros lugares a alimentação. A partir desta constatação, fazer um filme sobre comida era quase uma necessidade para mim.

Desde os primeiros encontros com o roteirista Lusa Silvestre, estabelecemos que Estômago seria uma ode à gastronomia, mas não àquela refinada e culta, típica dos filmes internacionais sobre o assunto: o que nos interessava era a “baixa-gastronomia”, a culinária de boteco. Em geral, os filmes gastronômicos falam de “alta” cozinha. Basta lembrar de “Vatel”, “Como Água para Chocolate”, “Simplesmente Martha”, ou “A Festa de Babette”. Mesmo “O Cozinheiro, O Ladrão, Sua Mulher e o Amante” aborda o tema a partir de um restaurante fino. No Estômago, o que queríamos era mostrar a beleza dos pratos populares, e a preparação deles em ambientes, como freqüentemente acontece, precários. Mesmo assim, queríamos que o filme deixasse o público com fome.

Mas, como na grande tradição da ‘comédia à italiana’ (à qual certamente este filme se filia), sob a aparência de um tema ameno e trivial, o que se buscava era lançar um olhar crítico sobre a realidade brasileira, e fazer rir, emocionar e refletir ao mesmo tempo. Um fato muito importante a ser destacado sobre o Estômago é que, apesar de sua aparência fabulosa, se trata de um filme bastante realista, especialmente no que se refere à vida dos protagonistas. A história é completamente inventada, mas poderia ter acontecido. E o relevante, ao afirmar isso, é que com Estômago procurei fazer um filme que falasse da vida dos miseráveis de maneira não paternalista. Mesmo os muito pobres riem, se divertem juntos, fazem piadas, gozam. Nem tudo são lágrimas e sofrimentos na vida dos que sofrem e choram. E a culinária é certamente um dos poucos prazeres acessíveis a quase todos, inclusive aos miseráveis. Aliás, a culinária é a única forma de “arte” acessível à quase todos. Menos aos que passam fome, é óbvio.

Este olhar crítico é evidente: Nonato primeiro é praticamente encarcerado pelo dono de um boteco, onde trabalha em troca de comida e moradia, não tendo sequer direito a salário; mais tarde, vai trabalhar - com bem mais dignidade, é verdade - para o dono de um restaurante italiano, cujo caráter brincalhão não esconde, no entanto, o preconceito que o faz referir-se a Nonato às vezes como paraíba, às vezes como cearense, muito embora Nonato afirme, várias vezes, não vir nem de um nem de outro desses lugares. E na cela, os outros prisioneiros o tratam da mesma maneira, adicionando ainda um outro tratamento preconceituoso, o de “parmalat”. Estes “preconceitos cruzados” não são o tema do filme, mas estão lá, evidentes, para que se reflita sobre eles. E para que se ria, também, é claro, já que o riso inteligente é a melhor forma de crítica que se conhece.

Estômago acompanha a trajetória do protagonista em seu aprendizado do sistema. E o faz de maneira um pouco cruel. Ninguém nota, é óbvio, mas Estômago começa na boca do protagonista e acaba em seu traseiro. Assim como o sistema digestivo, que transforma tudo, todas as delícias, em excrementos. Assim, o percurso de Nonato pela sociedade refaz o percurso da comida em nosso corpo. Deixo ao público as implicações desta metáfora.